Bibliografia
ARISTÓTELES. Órganon. Trad. Edson Bini. Bauru -SP: EDIPRO, 2010.
CÍCERO. Sobre o destino. Trad. José Rodrigues Seabra Filho. São Paulo: Nova Alexandria, 2001.

"O mundo é minha representação". É com essa constatação que Schopenhauer inicia sua obra máxima - O Mundo como Vontade e Representação. A representação se constitui essencialmente de sujeito e objeto. De modo que para o mundo ser tal qual é, basta que haja ao menos um sujeito no mundo, sem o qual, por outro lado, ele passaria a não mais existir.
Entretanto, quando há um sujeito, há também um objeto e, este, é inteiramente submetido ao princípio de razão: Nada é sem uma razão pela qual é. De modo que a maneira que o mundo se nos apresenta sempre está atrelada às formas a priori, quais sejam, espaço, tempo e as relações causais que resultam da união de espaço e do tempo no entendimento.
Schopenhauer, influenciado por Kant, nos fala do mundo fenomênico e de seu fundamento que está para aquém do fenômeno e o expressa. Porém, diferentemente de Kant, Schopenhauer nomeia esta coisa-em-si, condição da existência de todo fenômeno, identificando-a com a Vontade.
A vontade como coisa-em-si, fundamento de toda realidade, não poderia jamais ser conhecida através das ciências, visto que estas estão presas ao princípio de razão, do qual prescinde a Vontade. Schopenhauer sugere que o método de pesquisa não deve ser o externo, porém, o interno. Pois assim como nosso corpo é um objeto como qualquer outro e nele sentimos a vontade operando em cada ação que cometemos, assim também, por analogia, podemos atribuir vontade a todo e qualquer objeto. Assim a vontade individual do homem é alargada ao mundo mineral e vegetal, configurando uma vontade cósmica que a tudo fundamenta essencialmente.
Vale lembrar que a vontade enquanto essência do mundo não causa os fenômenos, porém expressam-nos, geram-nos. Porque no âmbito da vontade não existe causalidade, muito menos espaço, tempo ou multiplicidade, porém, a vontade é una consigo mesma. Entretanto, segundo Schopenhauer, a Vontade se expressa em graus de objetidade, dos quais as Ideias são a expressão mais adequada da Vontade. O conceito de Idéia é tomado de empréstimo de Platão, segundo o qual as idéias eram modelos ou arquétipos eternos das coisas múltiplas e efêmeras do mundo. Assim, é possível hierarquizar as Idéias segundo seus graus de objetidade, e é isso que faz Schopenhauer. No topo da lista se encontra a Idéia de humanidade, seguindo-se após ela a Idéia do reino animal, depois a do reino vegetal e mineral. Isso nos faz perceber que o real se apresenta de três modos: A vontade una, as Idéias (objetidades da Vontade) e os fenômenos da Vontade (a representação).
Em eterna luta consigo mesma, através de suas expressões, a Vontade sempre gera dor e sofrimento. No entanto a experiência estética pode furtar o homem, pelo menos por um momento, do círculo vicioso de sofrimentos em que está metido. Schopenhauer compreende a obra de arte como o acesso a objetidade adequada da vontade, a Idéia, anterior a toda realidade fenomênica, sendo portanto isenta de qualquer imitação da natureza, antes sendo um exemplar daquilo que a natureza tencionava fazer e não conseguiu.
SÓCRATES E O PROBLEMA DO VALOR DA VIDA
Se a vida não pode ser valorada, o que explica então o fato de que sábios tenham submetido à apreciação o valor da vida? E mais, o que explica que esses homens considerados sábios tenham atribuído pouco ou nenhum valor a vida? De fato, a vida não pode ser valorada e por motivos óbvios: Seria preciso primeiro estar fora da vida (NIETZSCHE, 2006, p. 36) como um Brás Cubas de Machado de Assis, tendo a imparcialidade necessária para poder emitir um julgamento sobre a vida. E ainda assim, esse julgamento repousaria sobre sua própria vida, e, portanto, em segundo lugar, é preciso para tal empreitada ter vivido todas as vidas, de todas as perspectivas possíveis.
O motivo para que tantos sábios, e principalmente Sócrates, tenham julgado a vida foi que eles “perceberam” uma Razão adjacente a esse mundo, mas que não se coaduna totalmente com ele. Em diálogos socráticos como o Lísis (só para citar um), o pensamento acerca da amizade leva as personagens do diálogo a não reconhecerem sua própria amizade como sendo amizade. De posse dessa Razão os sábios a colocaram em contraposição ao nosso mundo e a vida. Imaginaram um mundo para que pudessem julgar o mundo real. E o pior é que ao contrapor os mundos, o mundo real e com ele a vida verdadeira se tornaram mentiras.
Porém, não adianta procurar motivos dentro da lógica interna dos discursos desse consenso de sábios, (consenso que parece legitimar esse julgamento) no final das contas na base dessa valoração da vida reside uma enfermidade, uma fraqueza nas pernas. Esse julgamento à vida não passa de um sintoma, no fundo há uma natureza enferma, uma doença que faz com que o doente negue o próprio corpo e com ele toda sensibilidade, como se esta não fosse um critério de conhecimento seguro. O consenso de enfermos: assim se deveriam chamar e não de sábios, pois estes não souberam saborear a vida.
MORAL E RELIGIÃO – POR QUE ELAS ERRAM?
Essa compreensão enferma do mundo e da vida tem conseqüências aterradoras na moral e na religião. Uma visão negativa do mundo diminui o desejo de vida, exalta a mortificação do corpo. Tudo o que temos de mais precioso é jogado fora, quer-se a morte (NIETZSCHE, 2006, p. 23). E uma moral é pautada sobre essa visão. A razão é o guia do homem, mas ela o guia para a morte. É a melhor maneira de morrer ainda estando vivo.
Uma ação segundo a razão é uma ação universal, pois todos os homens são racionais. É a ação perfeita que todos devem imitar. Mas essa ação segundo o imperativo categórico de Kant está sendo regida pela mesma razão que nega o devir, que nega o corpo. O encaixe perfeito entre socratismo-platonismo e cristianismo. “Tu deves isso, tu não deves aquilo” diz o sacerdote, e tudo que afirma a vida e a sensualidade deve ser rejeitado e o que nega a vida deve ser aceito. A vida segundo essa moral é pautada sobre uma crença no que não se pode conhecer, uma crença absurda.
Toda moral e toda religião erra na medida em que universaliza ações, em que destrói individualidades. O cristianismo surgiu para Todos, não só para judeus; transformou-se em religião do Império romano; equacionou todo o ocidente em um único rebanho que não tolerava as diferenças. A crença no Ser, na Razão, na linguagem está na base de toda religião e moral e, por isso, erram.
NIETSZCHE APONTA PARA UMA ALTERNATIVA PARA A MORAL E A RELIGIÃO?
Se devesse haver uma moral, essa moral seria natural, teria que afirmar a vida. Seria o oposto da moral antinatural em tudo. Mas o que é uma moral? É um padrão de conduta, e como tal, orienta-nos a fazer isso e aquilo e a não fazer isso e aquilo outro de maneira universal. Mas onde há igualdade e imutabilidade é no reino da Razão e não em nosso mundo do devir. A nossa fisiologia é tão singular que não nos permite se deixar levar por uma regra que nos impõe igualdade e permanência. Não existe igualdade no mundo, no máximo semelhança.
Se estabelecêssemos uma moral natural, esta seria apenas uma corrupção da moral segundo a razão: a moral antinatural. Uma moral não pode ser natural, pois está intrínseco no conceito de moral a universalidade e o que é universal pressupõe igualdade, permanência, regularidade de causas e efeitos. No nosso mundo não há igualdade nem permanência, nem tampouco regularidade entre causas e efeitos. O filósofo inglês Hume mata a certeza na conexão necessária entre causa e efeito, e é Nietzsche quem fecha a tampa do caixão. O nosso mundo virou o mundo de Alice e a todo o momento estamos à beira do abismo.
Nietzsche é imoralista não no sentido de ser um libertino como muitos pensam, mas no de ver a impossibilidade de uma universalidade em nosso mundo do devir. Ele é imoralista pela impossibilidade de haver uma moral que afirme a vida e o mundo. A alternativa para moral e a religião é a negação de ambos.
METAFÍSICA DA LIGUAGEM – A SUBSTANCIALIZAÇÃO DAS COISAS
Parece natural que o homem olhe o mundo antropomorficamente, pois muito do conhecimento que nós adquirimos tem raízes em uma compreensão antropomórfica da realidade. Porém isso nos fez incorrer em erros. Considerar fenômenos da natureza como agentes e pacientes, devido a uma analogia com nossos atos, foi o maior dos erros. Foi considerar que a linguagem dava conta do entendimento do mundo. No mundo não existe um sujeito, um subjectum como na linguagem, pois nada subjaz ao fenômeno. Não há nada que dê sustentação e permanência ao mundo, pois só há movimento e luta constante entre contrários em uma dinâmica evanescente.
A causalidade na natureza nada mais é do que a extrapolação do conhecimento interno da vontade para as coisas externas. Porém o Eu que tem vontade não passa de uma ficção humana, pois neste mundo não há identidade, não há permanência. Logo, a idéia de causalidade vai por água abaixo. Não existe mais um sujeito que age sobre algo, mas sim um jogo de forças equivalentes que se alternam entre si no poder.
Nós não podemos, acertadamente, dar atribuições a um “objeto”, uma vez que este não será mais o mesmo no momento em que começarmos a atribuir certas características a ele. Ele nem mesmo pode ser chamado de objeto, já que não há um sujeito. Nós só podemos meramente indicar, apontar com o dedo como Crátilo, e esperar que quem nos vê não nos entenda como um sujeito que aponta um objeto, pois o mundo não se dá dessa maneira.
A linguagem quer um Ser que não existe, pressupõe uma permanência que nunca existiu no mundo. A linguagem põe o homem que se deixa guiar por ela nos maiores apuros, pois ela quer sempre uma causa, um sujeito. Onde está o Sujeito do mundo? Onde está Deus? Nós sempre desejamos a razão suficiente, porém a razão que encontramos nunca basta. O sujeito do mundo não pode ter causa, porém para tudo há uma causa. A linguagem é contraditória, a Razão tem uma dose de irracionalidade.
BIBLIOGRAFIA
NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos ídolos ou Como se filosofa com o martelo. Trad. Paulo César de Souza. – São Paulo: Companhia das Letras, 2006