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sexta-feira, 10 de junho de 2011

O prometer em falso na FMC de Kant

À questão: posso prometer em falso quando me encontro em dificuldades? Kant distingue os dois sentidos que a questão pode ter: se é prudente ou se é conforme ao dever prometer em falso, enfatizando que essas duas abordagens não são a mesma.

A primeira abordagem, que é mais comum, pergunta-se se é prudente prometer em falso, considerando as conseqüências, visto que da mentira pode decorrer problemas maiores que aquele que se quer evitar. Por exemplo, é prudente observar que perderei todo crédito nas minhas futuras promessas, de modo que a confiança dos outros em mim será profundamente abalada. Em última instância, seria muito mais prudente agir segundo uma máxima universal e nunca mentir.

Entretanto, agir tendo em vista uma máxima universal é totalmente diferente de agir através de uma consideração prudencial das conseqüências de minha ação, pois:

“enquanto no primeiro caso o conceito da acção em si mesma contém já para mim uma lei, no segundo tenho antes que olhar à minha volta para descobrir que efeitos poderão para mim estar ligados à acção”

Observamos, então, que o sentido prudencial em que a questão é posta se relaciona com o agir motivado por outros móbiles que não o respeito à lei moral. Neste caso, podemos ver que, considerar as conseqüências visa à obtenção da felicidade individual. Mas qual o grande problema de agir tendo em vista a felicidade? O problema é que na medida em que uma situação em que observemos que mentir não nos traz problemas futuros mentiremos sem pestanejar.

Para resolver o problema de forma mais rápida e segura Kant nos diz que basta nos perguntarmos se poderíamos querer que a nossa ação viesse a se converter em lei universal. Não poderíamos tornar lei que todos possam mentir quando se encontram em apuros, pois ninguém acreditaria mais em ninguém e não poderia haver mais promessa alguma. E, assim, a minha máxima se autodestruiria.

Porém alguém poderia dizer: Kant não está considerando as conseqüências da ação de prometer em falso, de modo que ela seria também uma consideração apenas prudencial? A resposta para isso é o fato de que se minha ação é motivada por fatores que não a lei moral, minha ação não será constante, pois minhas bases morais serão frágeis. Enquanto que agir segundo e somente pela lei moral sempre produzirá uma ação moral. O modo como Kant escreve pode confundir o leitor nesse ponto, mas que é claramente evidente diante da leitura de toda a seção. Considerar as conseqüências, nesse caso, se limita a questão de saber se prometer em falso numa situação de dificuldade é ao menos conforme ao dever.

Referencias bibliográficas

KANT, I. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Trad. Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2007

domingo, 15 de maio de 2011

1ª Seção da FMC


Os exemplos citados por Kant na primeira seção (exemplo do merceeiro, da conservação da vida, do ser caritativo etc.) cumprem o propósito de explicitar a ideia kantiana acerca do que configura a ação moral. No início da referida seção Kant se utiliza do conceito comum de “Boa vontade” para demonstrar que a Ética dos filósofos antigos e, sobretudo, a ética teleológica de Aristóteles, falhavam na medida em que reconheciam na virtude e na felicidade como o bem maior a motivação para a ação moral. Pois para Kant só à boa vontade pode ser dado o status de “boa em si mesma”.

Porém, diferentemente dos antigos, Kant coloca na razão o móbil da boa vontade, uma vez que argumenta que a função da razão prática, na medida em que é um órgão como todos os outros, é produzir uma boa vontade. Ao contrário do que se poderia pensar, a razão não tem a função de nos assegurar a felicidade, porém esta é claramente uma competência dos sentidos. Ademais, segundo Kant, a razão quando encarregada dessa função produz mais facilmente infelicidade do que felicidade. Entretanto, a “boa vontade é condição indispensável para o próprio fato de sermos dignos da felicidade”.

Kant passa, então, do conceito do senso comum de boa vontade para o conceito mais aprofundado de “Dever”, o qual contém em si o conceito de boa vontade. E pensa nas possibilidades de se caracterizar uma ação, das quais apenas uma é verdadeiramente uma ação moral: a ação por dever. De modo que Kant nos apresenta as ações:

· Contrárias ao dever: dessas Kant não irá se ocupar na FMC dado à sua facilidade de ser reconhecida, pois uma ação contrária ao dever é uma ação imoral.

· Conformes ao dever: as ações conformes ao dever são aquelas que parecem ações morais, feitas por dever, mas que no fundo foram feitas por inclinação imediata ou por qualquer outra tendência.

· Por dever: São àquelas ações que, como Kant depois dirá, são feitas por puro respeito à lei moral, ou seja, ações que têm como motor não as suas conseqüências, mas o princípio da lei moral.

É para esclarecer essa relação entre a ação moral e seus motivadores que Kant se serve de seus exemplos. Diferentemente do que normalmente se pensa, Kant quer mostrar que uma ação não pode ser moral se ela se fundamentar sobre fatos contingentes como nossas experiências sensíveis. Assim a moral kantiana exclui todo o âmbito sensível no propósito de fundamentar um princípio seguro. Pois o motivador de uma ação moral não pode ser seu objeto, mas o princípio do dever.

Tendo em vista o exposto acima, Kant se vale, a título de ilustração, do exemplo da conservação da vida, pois esta, embora seja um dever, não é, de fato, seguida por dever, mas pelo fato de todos os homens, no mais das vezes, terem instintivamente uma inclinação para se manterem vivos. Segue-se que essa ação é conforme ao dever e não por dever, ou seja, conservar a vida na maioria das vezes é agir conforme ao dever por inclinação. Entretanto, a máxima de um homem tem, claramente e verdadeiramente, conteúdo moral no que tange a conservação da vida quando ele já não tem mais inclinação imediata para a vida, ou seja, quando ele já não deseja mais viver, mas, contudo, permanece vivendo por dever.

Mas, por que o autor da Fundamentação da Metafísica dos Costumes insiste em não depositar o princípio da ação moral no âmbito sensível? Reflitamos no exemplo acima. Se a ação moral de conservar minha vida dependesse do amor que tenho a ela ou do desejo profundo que tenho em continuar vivendo; e ainda, se a conservação da vida dependesse da felicidade que sinto ou dos eventos contingentes que perfazem o ato de viver, então no momento em que não me sentisse feliz e eventos desagradáveis acontecessem ao ponto de me tirarem o gosto de viver, nesse momento tiraria minha própria vida. As conseqüências de fundamentar uma moral sobre a esfera da sensibilidade só evidencia a instabilidade dessa moral.

A ação moral deve ter subjetivamente, por um lado, por princípio o respeito à lei moral e, por outro, a própria lei objetiva que se manifesta através do imperativo categórico, a saber: “devo proceder sempre de maneira que eu possa querer também que a minha máxima se torne uma lei universa”l. Agindo por respeito à lei moral agiremos por dever e seremos talvez felizes, mas se não formos, seremos pelo menos os que deveriam ser.

sábado, 16 de abril de 2011

Sobre o prefácio da Fundamentação da Metafísica dos Costumes


A busca por um princípio moral que orientasse a conduta dos homens habitava o pensamento de antigos e medievais, estes através da religião cristã que se queria universal, e, portanto, fundadora de uma moral que deveria se estender a todos os homens e aqueles através da idéia do Bem e da virtude. E até mesmo o senso comum quando julga ações ou pessoas pressupõe a universalidade de seu julgamento. A “idéia comum do dever e das leis morais” (389) manifestam a necessidade de um princípio seguro que prescinda de toda a experiência e que oriente a conduta dos homens de maneira universal.

Visto que, para Kant, um saber só se configura como universal e necessário quando está embasado na razão pura, ele inicia o prefácio da GM dando sua contribuição para a já estabelecida divisão da filosofia em Lógica, Física e Ética, para assim, demarcar os limites de nosso conhecimento e demonstrar a necessidade de uma metafísica dos costumes. Ele separa o conhecimento racional pelo seu objeto. Assim, temos:

· Conhecimento racional formal: Como o próprio nome diz o conhecimento formal, da qual a lógica é a representante, se ocupa da forma e das leis do pensamento, de modo que abstrai todo objeto particular ou conteúdo do pensamento.

· Conhecimento racional material: A Física e a Ética se enquadram nesta subdivisão, pois ambas investigam os objetos da natureza e as leis que os governam, os quais estão no tempo e no espaço e, por isso, são fenômenos ou objetos da experiência. Tratando-se das leis naturais, o conhecimento racional chama-se filosofia natural e, por outro lado, referindo-se às leis da liberdade denomina-se filosofia dos costumes. A filosofia natural se ocupa das leis segundo as quais tudo acontece, entretanto a filosofia dos costumes se debruça sobre leis de acordo com as quais tudo deve acontecer.

Kant divide a filosofia em dois grandes campos que insiste em manter separados: filosofia empírica e filosofia pura.

· Empírica: Se sustenta em princípios da experiência.

· Pura: deriva-se de princípios que residem a priori. Se for simplesmente formal recebe o nome de lógica, porém, dá-se o nome de Metafísica se ferir-se a objetos do entendimento. Ou seja, a física e a ética quando forem puras são chamadas respectivamente de Metafísica da natureza e Metafísica dos costumes.

As críticas aos pensadores que misturaram a parte pura com a empírica são ferrenhas. Ao longo de toda a GM Kant retornará a sua preocupação de manter separados os dois tipos de filosofia. A história mostrou que as abordagens que não consideraram essa separação não conseguiram atingir seus objetivos de acordo com as exigências de necessidade e universalidade que a razão impõe. Só uma lei que se estribe em princípios a priori pode ter em si uma “absoluta necessidade” (389). Os costumes dos povos são diferentes, cada um tem suas particularidades, mas isso cabe a Antropologia prática e não à Metafísica dos costumes. Kant não está preocupado com o campo do contingente neste caso. O que urge para ele é fundamentar um princípio supremo da moralidade, segundo o qual todos os homens em todas as culturas e épocas possam se orientar.

Assim, Kant adverte que a busca por esse princípio não é necessária apenas especulativamente, mas que seu propósito se estende a sua aplicação no agir do homens que se encontram desprovidos de um princípio regulador de sua conduta moral. A ausência dessa orientação segura leva os homens ao erro, pois embora ajam muitas vezes de conformidade com a lei moral, também erram na mesma proporção. E ainda é mais fácil afirmar isso sabendo que o homem é facilmente levado a agir instintivamente. Portanto, regras práticas não são seguras para fundamentar o agir dos homens, fato que mostra que só uma metafísica dos costumes é capaz de suprir essa necessidade de orientação moral. Em todas as épocas os filósofos buscaram esse princípio supremo da moralidade, mas não com os critérios de aprioridade, necessidade e universalidade.

REFERÊNCIA

KANT, I. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. São Paulo: Editora Abril, Col. Os

Pensadores, 1973.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O juízos sintéticos a priori na filosofia de Kant


Após ler algumas partes do livro "Prolegômenos a toda metafísica futura" compreendi alguns pontos importantes da filosofia de Kant que acho que valem apena ser escritos aqui a título de nota.
As fontes de toda metafísica como o próprio nome indica devem estar além de toda experiência e, portanto, devem ser oriundos da razão pura, ou em outras palavras, a priori. Um juízo metafísico para ter alguma validade deve ser necessário, absoluto. Conhecemos juízos desse tipo: os juízos analíticos, os quais se caracterizam pela ausência de produção de conhecimento. Tais juízos são apenas explicativos e não acrescentam conhecimento algum, Ex.: Os corpos são extensos. Nesse exemplo vemos que o predicado "extensos" já está presente no conceito de corpo, não nos informado nada além do que já estava posto no sujeito. Segue-se daí que todos os juízos analíticos derivam do princípio de contradição, pois não se pode afirmar o sujeito e negar o predicado. De modo que esses juízos analíticos não servem para fundamentar a metafísica, uma vez que ela precisa de juízos que, ao mesmo tempo, sejam necessários e acrescentem conhecimentos.

Hume falhou ao julgar que a "aparência" de necessidade que existem nas conexões de fato se devam ao hábito da experiência. Faltou-lhe pensar nos juízos sintéticos a priori. Um juízo sintético se caracteriza pela adição (síntese) de conhecimento que proporciona, entretanto a maioria deles são a posteriori. O que Kant precisa para fundamentar a ciência da metafísica são juízos sintéticos, porém, a priori. Seriam, portanto, aqueles que preencheriam os requisitos de necessidade/aprioridade e síntesi de conhecimento. Restou a Kant indagar sobre o princípio em que esses juízos se fundamentariam, posto que os analíticos se fundam no princípio da contradição. A resposta estava nas formas a priori da sensibilidade (tempo e espaço), elas assegurariam a possibilidade dos juízos sintéticos a priori, uma vez que a intuição (representação imediata) de tempo e espaço é anterior (a priori) a toda experiência sensível e a torna possível.

Os juízos sintéticos a priori têm como consequência uma das maiores revoluções do pensamento humano, a qual se compara com a revolução copernicana: os homens percebem o mundo de acordo com estruturas cognitivas predeterminadas. Nós não somos apenas espelhos que refletem a realidade, mas a vemos assim porque somos humanos, porque temos estruturas no pensamento que nos fazem perceber um mundo à maneira dos homens.