sábado, 20 de agosto de 2011

Introdução à Fenomenologia do Espírito


Algum tempo atrás, escrevi sobre meu primeiro contato com a Fenomenologia do Espírito de Hegel e... Bem, continuo, ingenuamente, tateando a compreensão dessa obra terrível e maravilhosa. O prefácio dessa obra continua envolto de mistério (para mim), mas agora com uma percepção mais clara de alguns pontos salteados, e posso, a despeito da dificuldade de interpretação, ainda me deleitar com passos de grande inspiração e beleza. Entretanto, o que nos interessa aqui é a introdução.

Hegel inicia a introdução da Fenomenologia do Espírito fazendo uma crítica a concepção de conhecimento que pressupõe que para este seja necessário um instrumento ou meio. Ou seja, Hegel está criticando a compreensão natural de que é preciso, para se alcançar o saber, de um instrumento que nos ponha em contato com a verdade ou, por outro lado que, para esta alcançar, seria preciso considerar um meio. Não obstante, tal compreensão e os problemas que decorrem de sua presuposição não passam de engano e por um medo da verdade que se faz passar por zelo dela. O saber não se atinge estaticamente através dos conceitos fixos de sujeito em oposição a objeto. Mas o saber se dá no puro exercício cinético do saber.

A ciência nada mais é que a "ciência da experiência que faz a consciência" (§ 36). É o movimento do espírito que vai abrindo caminho em direção a verdade, passando pelas etapas e figuras da alma individual ao mesmo tempo em que é Espírito da história. Portanto, movimento em duplo sentido.

Percebemos que o movimento do Espírito é impulsionado para outras etapas de desenvolvimento quando consideramos a medida de comparação entre o objeto para-nós e o objeto em si-mesmo. A medida de comparação está na consciência nela mesma e não fora dela. Quando a consciência "enxerga" que aquilo que ela imaginava ser em-si no objeto é apenas a maneira como ela o apreende e, portanto, um para-si e não em si, então, o que antes era limitação, que era em si, agora é visto somente como para-si, e outro horizonte para ser alcançado se coloca, pois o em-si se transmutou em para-si, surge então uma nova figura de consciência.

Assim, esse caminho de etapas e mudanças contínuas só se conclui quando o objeto se iguala ao seu conceito, porém concluir não significa que tudo não se repetirá novamente, pois a "saudade" do espírito o leva a percorrer novamente as etapas pelas quais antes passou.

Referências:
HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do Espírito. Trad.: Paulo Meneses. Petrópolis: Vozes, 2007.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O par'hemás epicúrio: a evidência da responsabilidade por uma ação






Trabalho publicado nos anais da XIX Semana de Humanidades-UFRN:
Skipp Redirect 2.8.0026
v2.8.0029
disponível

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Download: Sobre a Geração e a Corrupção de Aristóteles






Para os estudantes de filosofia antiga metidos a filólogos, posto o link de uma obra de Aristóteles que não pode faltar na sua biblioteca de arquivos nem na sua xérox-oteca ou no seu amontoado de papéis que sua mãe odeia: Sobre a Geração e a Corrupção, inclusive com marcação e tudo que tem direito.

domingo, 19 de junho de 2011

A tecnologia

Acredito que a tecnologia é sempre sobre-determinada sócio-economicamente. Não me esqueço da impressão que tive quando criança, no final dos anos 80, quando me deparei com meu pai diante de uma tela na qual apenas com o toque dos dedos era manipulada. Nunca vira nada parecido em nenhum lugar e não era à toa que o único lugar em que a vi era em um banco. Hoje vemos computadores a torto e a direito, de todos os tamanhos e para todos os gostos, mas naquela época era diferente. Será que foi casual ter visto pela primeira vez em um banco um computador de ponta? Será que era para o bem da população? Atualmente as greves de banco não têm mais a força que tinham no passado, os funcionários são quase dispensáveis, pois até mesmo de casa se podem fazer consultas e transações bancárias.

Por que o metrô, o trem bala e o celular? Pergunte a um executivo japonês de meia idade se todo esse progresso melhorou sua vida. A tecnologia tem invadido tanto as nossas vidas e alterado o nosso modo de viver que parece que tudo está fora de controle. É aí que entra a indústria do lazer para nos livrar do estresse do dia-dia. Todas essas tecnologias são inteiramente interessadas. Elas visam a maximização do lucro ao menor custo possível.

Não acredito na neutralidade da tecnologia, pois se realmente fosse neutra, esperaríamos confiantes pelo desenvolvimento de energias limpas e renováveis. Imagine você abastecendo seu carro com lixo orgânico, de duas uma, ou nunca isso acontecerá ou o preço do lixo aumentará substancialmente e o Brasil finalmente será o país do futuro com todo esse nosso potencial acumulado nos lixões.

A discussão sobre a destruição do meio ambiente pela intervenção tecnológica do homem veio por às claras o fato de que nem mesmo iminentes ameaças são motivos para interromper o impulso do capitalismo na tecnologia.

Hoje somos forçados a crer que precisamos mais que uma mesa e um banquinho, como precisou Robinson Crusoé para se sentir humano e civilizado, longe disso, hoje precisamos de um notebook, uma TV de LCD ou LED, um microondas, um Tablet...

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O prometer em falso na FMC de Kant

À questão: posso prometer em falso quando me encontro em dificuldades? Kant distingue os dois sentidos que a questão pode ter: se é prudente ou se é conforme ao dever prometer em falso, enfatizando que essas duas abordagens não são a mesma.

A primeira abordagem, que é mais comum, pergunta-se se é prudente prometer em falso, considerando as conseqüências, visto que da mentira pode decorrer problemas maiores que aquele que se quer evitar. Por exemplo, é prudente observar que perderei todo crédito nas minhas futuras promessas, de modo que a confiança dos outros em mim será profundamente abalada. Em última instância, seria muito mais prudente agir segundo uma máxima universal e nunca mentir.

Entretanto, agir tendo em vista uma máxima universal é totalmente diferente de agir através de uma consideração prudencial das conseqüências de minha ação, pois:

“enquanto no primeiro caso o conceito da acção em si mesma contém já para mim uma lei, no segundo tenho antes que olhar à minha volta para descobrir que efeitos poderão para mim estar ligados à acção”

Observamos, então, que o sentido prudencial em que a questão é posta se relaciona com o agir motivado por outros móbiles que não o respeito à lei moral. Neste caso, podemos ver que, considerar as conseqüências visa à obtenção da felicidade individual. Mas qual o grande problema de agir tendo em vista a felicidade? O problema é que na medida em que uma situação em que observemos que mentir não nos traz problemas futuros mentiremos sem pestanejar.

Para resolver o problema de forma mais rápida e segura Kant nos diz que basta nos perguntarmos se poderíamos querer que a nossa ação viesse a se converter em lei universal. Não poderíamos tornar lei que todos possam mentir quando se encontram em apuros, pois ninguém acreditaria mais em ninguém e não poderia haver mais promessa alguma. E, assim, a minha máxima se autodestruiria.

Porém alguém poderia dizer: Kant não está considerando as conseqüências da ação de prometer em falso, de modo que ela seria também uma consideração apenas prudencial? A resposta para isso é o fato de que se minha ação é motivada por fatores que não a lei moral, minha ação não será constante, pois minhas bases morais serão frágeis. Enquanto que agir segundo e somente pela lei moral sempre produzirá uma ação moral. O modo como Kant escreve pode confundir o leitor nesse ponto, mas que é claramente evidente diante da leitura de toda a seção. Considerar as conseqüências, nesse caso, se limita a questão de saber se prometer em falso numa situação de dificuldade é ao menos conforme ao dever.

Referencias bibliográficas

KANT, I. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Trad. Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2007

domingo, 15 de maio de 2011

1ª Seção da FMC


Os exemplos citados por Kant na primeira seção (exemplo do merceeiro, da conservação da vida, do ser caritativo etc.) cumprem o propósito de explicitar a ideia kantiana acerca do que configura a ação moral. No início da referida seção Kant se utiliza do conceito comum de “Boa vontade” para demonstrar que a Ética dos filósofos antigos e, sobretudo, a ética teleológica de Aristóteles, falhavam na medida em que reconheciam na virtude e na felicidade como o bem maior a motivação para a ação moral. Pois para Kant só à boa vontade pode ser dado o status de “boa em si mesma”.

Porém, diferentemente dos antigos, Kant coloca na razão o móbil da boa vontade, uma vez que argumenta que a função da razão prática, na medida em que é um órgão como todos os outros, é produzir uma boa vontade. Ao contrário do que se poderia pensar, a razão não tem a função de nos assegurar a felicidade, porém esta é claramente uma competência dos sentidos. Ademais, segundo Kant, a razão quando encarregada dessa função produz mais facilmente infelicidade do que felicidade. Entretanto, a “boa vontade é condição indispensável para o próprio fato de sermos dignos da felicidade”.

Kant passa, então, do conceito do senso comum de boa vontade para o conceito mais aprofundado de “Dever”, o qual contém em si o conceito de boa vontade. E pensa nas possibilidades de se caracterizar uma ação, das quais apenas uma é verdadeiramente uma ação moral: a ação por dever. De modo que Kant nos apresenta as ações:

· Contrárias ao dever: dessas Kant não irá se ocupar na FMC dado à sua facilidade de ser reconhecida, pois uma ação contrária ao dever é uma ação imoral.

· Conformes ao dever: as ações conformes ao dever são aquelas que parecem ações morais, feitas por dever, mas que no fundo foram feitas por inclinação imediata ou por qualquer outra tendência.

· Por dever: São àquelas ações que, como Kant depois dirá, são feitas por puro respeito à lei moral, ou seja, ações que têm como motor não as suas conseqüências, mas o princípio da lei moral.

É para esclarecer essa relação entre a ação moral e seus motivadores que Kant se serve de seus exemplos. Diferentemente do que normalmente se pensa, Kant quer mostrar que uma ação não pode ser moral se ela se fundamentar sobre fatos contingentes como nossas experiências sensíveis. Assim a moral kantiana exclui todo o âmbito sensível no propósito de fundamentar um princípio seguro. Pois o motivador de uma ação moral não pode ser seu objeto, mas o princípio do dever.

Tendo em vista o exposto acima, Kant se vale, a título de ilustração, do exemplo da conservação da vida, pois esta, embora seja um dever, não é, de fato, seguida por dever, mas pelo fato de todos os homens, no mais das vezes, terem instintivamente uma inclinação para se manterem vivos. Segue-se que essa ação é conforme ao dever e não por dever, ou seja, conservar a vida na maioria das vezes é agir conforme ao dever por inclinação. Entretanto, a máxima de um homem tem, claramente e verdadeiramente, conteúdo moral no que tange a conservação da vida quando ele já não tem mais inclinação imediata para a vida, ou seja, quando ele já não deseja mais viver, mas, contudo, permanece vivendo por dever.

Mas, por que o autor da Fundamentação da Metafísica dos Costumes insiste em não depositar o princípio da ação moral no âmbito sensível? Reflitamos no exemplo acima. Se a ação moral de conservar minha vida dependesse do amor que tenho a ela ou do desejo profundo que tenho em continuar vivendo; e ainda, se a conservação da vida dependesse da felicidade que sinto ou dos eventos contingentes que perfazem o ato de viver, então no momento em que não me sentisse feliz e eventos desagradáveis acontecessem ao ponto de me tirarem o gosto de viver, nesse momento tiraria minha própria vida. As conseqüências de fundamentar uma moral sobre a esfera da sensibilidade só evidencia a instabilidade dessa moral.

A ação moral deve ter subjetivamente, por um lado, por princípio o respeito à lei moral e, por outro, a própria lei objetiva que se manifesta através do imperativo categórico, a saber: “devo proceder sempre de maneira que eu possa querer também que a minha máxima se torne uma lei universa”l. Agindo por respeito à lei moral agiremos por dever e seremos talvez felizes, mas se não formos, seremos pelo menos os que deveriam ser.

domingo, 1 de maio de 2011

Efeitos colaterais


-Dr., que tipo de intervenção medicamentosa é essa? Disse Arnaldo se demorando na palavra "medicamentosa" que tinha ouvido do médico.
-Não é nada de mais. Na verdade é bem simples. Tome esse remédio... e escreveu na receita.
-Tome esse remédio - continuou o médico - e em dez dias nós conseguiremos o efeito que desejamos.
O médico sorriu estendendo a receita para que Arnaldo pegasse e falou:
-Não precisa se preocupar, nós temos tudo sob controle. E além disso, muita gente já passou por isso e estão todos bem, aliás não tenho ouvido reclamações, pelo contrário, tenho até recebido elogios pela eficácia do tratamento.
-Mas Dr. esse tratamento é muito antinatural...
- E quem disse que ser antinatural é ruim - interrompeu o médico.
- Se seguissemos estritamente o que a natureza nos ordena continuaríamos vivendo apenas 20 anos- continuou.


Isso bastava para Arnaldo, estava satisfeito, iria fazer o tratamento. Ademais ouvira na televisão, alguns anos antes, sobre este tratamento revolucionário que, de uma vez por todas, daria ao homem o status de divino que os antigos tanto desejavam. Pensava sobre isso enquanto saía da clínica e se dirigia para o estacionamento.
- Droga, esqueci de perguntar ao Dr., sobre os efeitos colaterais... sussurou enquanto entrava no veículo.

Google

tratamento para remanejamento energético dos escrementos.

Leu algumas páginas na internet sobre o assunto e não demorou para encontrar sites que comentavam sobre os efeitos colaterias do tratamento. Gostaria do que tinha lido a menos que não tivesse considerado o seu modo de vida. Trabalhava como professor de História em uma escola do subúrbio. Não pensava mais para dar suas aulas. Não lia, não se interessava mais sobre a história da humanida, talvez odiasse História. Desempenhava o seu papel de professor mecanicamente, ele não fazia mais nada de instigante nem criativo.

O texto da internet sobre os efeitos colaterais do tratamento dizia que o ato de defecar jamais seria preciso novamente, pois tudo o que o homem consumisse seria aproveitado pelo organismo atrés de reações químicas provocadas pela admistração da substância xxx. Por isso os pacientes ficariam mais criativos, mais inteligentes e produtivos. A arte é um caminho aconselhado pelos médicos. Arnaldo não queria mudar sua rotina, queria defecar pela manhã vendo suas revistas de mulher pelada, tomar café demoradamente como se não tivesse mais nada pra fazer na vida e depois limpar a mente para ir trabalhar.Era só o que queria, mas foi forçado a esse tratamento devido aos reincidentes problemas de hemorróidas.

Arnaldo ao longo dos dez dias lutou contra a criatividade, contra todo tipo de desejo de se expressar artisticamente. Esse desejo nunca veio, percebeu que não precisaria lutar contra algo que não existia absolutamente. Até ia para o vaso sanitário pela manhã, mesmo sabendo que isso não fazia sentido. Pelo menos não tinha de dar satisfações a ninguém sobre essas vaidades, pois o prof. Arnaldo morava sozinho desde o fim da faculdade. Apenas algumas visitas de vez em quando de alguma amiga ou putas para as quais o salário de professor era talvez curto de mais.

Acordou, fez o seu ritual diário, saiu para rua fumando um charuto, coisa que nunca tinha fumado antes (até maconha já fumara na universidade, mas nunca um charuto), fato que deixou ele preocupado, pensando se enfim o tratamento não tinha seu primeiro indício de efeito colateral. Entrou na sala como de costume e colocou a sua pasta sobre a mesa e, passados alguns minutos, no meio de uma aula sobre as primeiras civilizações, quando um aluno bocejava e o outro já estava recostado sobre a mesa da carteira...

- Mesopotâmia é uma palavra de origem grega que significa...

Baaaaaaaaaaaaaaannnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnngggggggggggggggggggggggggggg.

Um grande estouro se produziu. Tudo se iluminou e foram vistos homenzinhos sobre a mesa do prof. Arnaldo construindo pirâmides com a ajuda de outros seres de aspecto estranho, parecidos com o Piu-piu do desenho animado de "Piu-piu e Frajola".