domingo, 13 de setembro de 2009

Signos linguísticos na obra: Curso de linguística geral de F. Saussure


INTRODUÇÃO

Ferdinand de Saussure na obra Curso de Lingüística geral, que surgiu da reunião das anotações das aulas de Saussure pelos seus alunos, prima pelo esclarecimento do objeto específico da lingüística, o qual, até então, não houvera sido indicado com clareza pelos lingüistas, pois estes se voltavam predominantemente para os fatos externos à língua. É neste ponto que Saussure supera os outros pesquisadores, a saber, em ter dado à lingüística a independência frente às ciências antes indispensáveis a ela.
O pensamento do mestre genebrino veio a desencadear o estudo de uma nova ciência que se mostrava emergente: a semiologia ou semiótica, da qual a antropologia estrutural de Lévi-Strauss é uma parte e a lingüística é outra (só para citar as mais conhecidas). E da linguística Saussure definiu, então, que seu objeto específico de estudo era a língua (la langue) e isso exclui até mesmo a fala (la parole), embora nosso autor traga à tona uma bifurcação no caminho dos lingüistas afirmando que se deve escolher entre dois caminhos impossíveis de trilhar ao mesmo tempo: a lingüística da fala e a lingüística cujo objeto é propriamente a língua. Quando Ferdinand de Saussure define a língua como objeto de estudo da lingüística ele elimina desta ciência todos os elementos externos à língua, como por exemplo, certos fatos históricos de uma língua ou de uma raça. Pois se considerarmos a língua em seu sistema e em suas regras estaremos compartilhando do pensamento de Saussure, mas, se ao contrário, pensarmos que o mais importante são os elementos que não configuram o sistema da língua como os costumes de uma nação que podem ter tido relevância no que tange aos fatos lingüísticos, estaremos indo na contramão da teoria de F. Saussure.
Mas o que é a língua? É em volta dessa questão que pretendo, primeiramente, direcionar minha atenção neste trabalho, pois respondendo a essa pergunta adentraremos no campo que proponho abordar mais detidamente, ou seja, na análise dos signos lingüísticos. E enquanto discorremos acerca dos signos é inevitável que tenhamos de fazer certos esclarecimentos no que concerne às diferenças existentes entre a Linguagem, a Língua e a Fala. No presente trabalho, utilizarei como fonte somente a obra Curso de lingüística geral, não recorrendo a comentadores, exceto aos comentários feitos pelo professor em sala de aula.


LÍNGUA (La langue)

Esclarecido o objeto de estudo da lingüística, é necessário, então, definir o que nosso autor entende como “língua”, e nesta definição é preciso também considerar a contraposição com a linguagem, uma vez que o fato de não destacar as diferenças entre as duas pode ser motivo de confusão, levando o leitor a tomar uma palavra pela outra.
Para Saussure a língua é uma parte, embora essencial, da linguagem, tendo em vista que, a língua é quem possibilita o exercício da linguagem. Enquanto a linguagem é algo natural do homem, pois o homem é por natureza um ser gregário, a língua é uma convenção, da qual os homens se utilizam no contato com os outros. Deste ponto podemos observar que a língua é um produto social e só na coletividade que ela existe por completo, ela é quem unifica a multiplicidade da linguagem em um sistema convencionado. A língua constitui-se, pois, num sistema de signos que correspondem a idéias distintas, sistema do qual poderíamos dizer que é a linguagem menos a fala e que permite alguém compreender e ser compreendido.
Uma vez que Saussure põe em separado o estudo da fala (La parole), inevitavelmente temos que esclarecer o motivo pelo qual o autor, na definição do objeto específico da lingüística, separa e como afirma que é possível separar o estudo da língua e da fala. Vemos na presente obra que comento que seu autor afirma que, embora a língua e a fala sejam interdependentes entre si, pois todos nós, por um lado, aprendemos nossa língua materna ouvindo os outros e, por outro, sabendo que em qualquer situação seria inevitável que o homem tivesse falado primeiro para associar uma imagem verbal a uma idéia, a língua e a fala são coisas distintas. Isso pode ser observado se levarmos em consideração algumas distinções entre a língua e a fala. Pois um homem ainda que seja desprovido de sua capacidade de falar pode conservar a língua contanto que compreenda os outros, mas o contrário é impossível, além de que, os órgãos vocais são exteriores à língua. A língua existe intramentalmente na coletividade, depositada em cada cérebro passivamente e independente da escolha do indivíduo, enquanto que a fala é individual e dependente da vontade do falante. Mas, embora a língua seja psíquica não é uma mera abstração, ela existe concretamente em nossos cérebros e prova disso é que podemos fixar os signos lingüísticos em imagens convencionais, ou seja, podemos escrever esses signos. Percebe-se que a língua é superior a fala na medida em que aquela é essencial e esta é apenas um acessório da língua. A língua é, pois, uma potência aristotélica que se atualiza a cada momento na fala.
E como tinha proposto anteriormente, passemos ao estudo dos signos dos quais esses esclarecimentos eram primordiais e em que já vemos a premência de explicar os signos linguísticos, uma vez que eles fizeram parte dos esclarecimentos acima expostos.


SIGNOS LINGUÍSTICOS

Como já vimos, a língua é um sistema de signos que correspondem a idéias distintas, porém não explicamos o que são esses signos. O que Saussure chama de signos é a união entre uma imagem acústica e um conceito, isso se evidencia se levarmos em consideração que um signo lingüístico não une uma coisa e uma palavra, mas um conceito e uma imagem acústica, dos quais:
a) A imagem acústica ou significante é a impressão psíquica do som, que se dá, por exemplo, quando falamos em silêncio conosco (esse termo do signo não pode ser confundido com o som material);

b) O conceito ou significado é a idéia que se associa a imagem acústica para formar o signo linguístico.

De modo que se investigarmos o circuito da fala, perceberemos a função desses dois termos. Pois quando alguém fala é necessário que um conceito ou significado provoque em nossa mente uma imagem acústica ou significante que seja, por sua vez, projetada pelo aparelho fonador como som material e em seguida seja recebida pelo ouvido de um interlocutor e que tal som seja convertido no cérebro deste em uma imagem acústica que corresponderá a um conceito, é assim, pois, que esses termos do signo funcionam. Estes são realidades existentes no cérebro e são tangíveis na escrita que tem a função de representar o sistema de signos linguísticos.
Outra característica que deve ser levada em consideração aqui é a arbitrariedade do signo ou o fato de que ele é imotivado, pois a idéia de mar não tem relação interna nenhuma com a seqüência de sons m-a-r, ou seja, a idéia de mar poderia ser expressa por qualquer outro signo, uma prova disso é a diferença entre as línguas, pois se em português eu expresso a idéia de menina pela seqüência de sons m-e-n-i-n-a em latim a seqüência de sons dessa mesma idéia é p-u-e-l-l-a (puella). Porém embora a língua seja arbitrária ninguém pode modificá-la, porém em contrapartida o tempo altera evidentemente a língua, de modo que nessa alteração ocorre um deslocamento entre o significante e o significado, mas a língua considerada em sua evolução é um caráter da lingüística diacrônica estabelecida por Saussure em sua obra, onde ele contrapõe a linguística estática ou sincrônica à lingüística diacrônica, porém esta não é o foco das atenções neste trabalho e sim a linguística estática. Uma observação que deve ser feita é a de que o significante ou a imagem acústica não pode ser confundido com um símbolo, pois este não é arbitrário e, portanto, não pode ser substituído por qualquer outro símbolo. De fato se imaginarmos o símbolo da justiça, ou seja, a balança é evidente que não poderíamos trocá-lo por, por exemplo, um carro. Uma vez que este último não goza de uma relação interna com a idéia de justiça, acontecendo exatamente o oposto com a balança que traz consigo significados que remetem à justiça, como a equidade, honestidade etc.
Como um último ponto a ser tratado neste trabalho a respeito dos signos, gostaria de falar acerca do valor do signo lingüístico e para isso abrirei um pequeno tópico em um parágrafo curto para falar rapidamente acerca deste ponto importante da teoria de Saussure.

VALOR DO SIGNO LINGUÍSTICO

O valor de algo, seja lá do que for, sempre é constituído em dois aspectos: na relação de semelhança entre algo e algo para termos de comparação e, contrariamente, na diferença de alguma coisa com relação a outra para ser trocada por ela. Pois uma moeda de cinco centavos, no segundo caso, pode ser trocada por uma bala, de modo que o valor da bala fica determinado pela diferença ou dessemelhança com relação à outra coisa. E para exemplificar o primeiro caso podemos dizer que o valor da moeda de cinco centavos pode ser comparado com uma moeda de mesmo valor de um outro país, por exemplo, cinco centavos de dólar, de modo que o valor da primeira determina-se em função da segunda. Do mesmo modo os signos definem seu valor através da semelhança ou dessemelhança com relação a outros signos, ou seja, os termos são determinados pelas palavras que o rodeiam, e tem sempre seu valor definido negativamente, de modo que sabemos o valor de um signo somente quando ele é relacionado aos signos que ele não é.

CONCLUSÃO

A teoria de Ferdinand de Saussure teve influências profundas na Filosofia, na Antropologia, Psicologia e óbvio na Lingüística, seus conceitos serviram de base para o desenvolvimento do Estruturalismo e da Semiótica. E o curso de lingüística geral, que conhecia só de nome, surpreendeu-me com a genialidade do pensamento de seu autor, de modo que se tornou patente para mim o lugar desta obra como um marco das ciências humanas que deve ser lido pelos alunos de qualquer curso ou por todo aquele que ama o saber e está aberto a conhecer o pensamento dos grandes homens. Neste trabalho me limitei a esclarecer alguns pontos da lingüística sincrônica, parte da obra que, sem dúvida, carrega a sua maior originalidade. Enfim remeto ao tema escolhido citando um trecho do Curso de lingüística geral: “sem o recurso dos signos, seríamos incapazes de distinguir duas idéias de modo claro e constante”.

sábado, 5 de setembro de 2009

Voltaire no texto "Sou livre?" e outros da obra O filósofo e o ignorante


Voltaire, no capítulo XIII de sua obra O filósofo e o ignorante, escreve acerbamente, como é de seu feitio, a respeito da liberdade, tomando a posição determinística, num primeiro momento, de que o acaso não existe e de que tudo está sujeito à causalidade que se evidencia na natureza. Pois como o homem, este “animalzinho”, com todas as suas limitações, se elevaria acima das leis da natureza?
Por conseguinte, a vontade humana também se submeteria às leis da causalidade, pois, no momento em que quero, quero porque alguma situação vivida me leva a desejar aquilo que quero. Entretanto Voltaire afirma que os homens têm uma porção de liberdade, qual seja: “o poder que receberam da natureza para fazerem o que querem em muitos casos”. O filósofo toma, então, a perspectiva do compatibilista, o qual não nega a lei de causalidade que rege a natureza e nossas ações, mas que também não nega que há liberdade nelas, ou seja, liberdade não é ausência de causalidade, mas sim ausência de coação, assim como diz Voltaire: “Minha liberdade consiste em andar quando quero andar desde que não sofra de gota” (XIII), pois a liberdade do homem “consiste em seu poder de agir” (LI).
No capítulo LI e nos seguintes, Voltaire discorre a cerca da ignorância dos homens e a sua própria no que concerne aos tempos antigos, a ignorância com respeito a sua própria nação, a ignorância do clero patente nas absurdidades das histórias contadas sobre os ditos santos e de seus milagres, a ignorância proveniente da intolerância e, por último, faz um apelo para que a razão não se submeta ao “monstro” do fanatismo que, ainda nos tempos do iluminismo, surgia com a intenção de cercear a liberdade de pensamento dos homens de razão.
Enfim, as leituras dos textos de Voltaire sempre são prazerosas e acompanhadas de risos espontâneos a cada pilhéria que ele deixa, brilhantemente, nas linhas de suas obras, que se não eram escritas com sangue, como queria Nietzsche, certamente eram escritas com a tinta ácida do descaramento.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Pensamentos Metafísicos


A obra de Spinoza chamada Pensamentos Metafísicos foi escrita como apêndice de uma outra obra sua chamada Princípios da filosofia cartesiana, à qual, por vezes, remete o leitor. Mas, embora seja um apêndice, é uma obra profunda em que os conceitos metafísicos são explicados e podemos entrever as principais concepções da filosofia de Spinoza. É um texto difícil de ler, pois Spinoza se utiliza da linguagem dos escolásticos, o que dificulta a compreensão de certos termos. Portanto, é necessária uma leitura atenta e sempre retroativa, visando à consulta das definições dos termos empregados por ele. No entanto, é sempre prazeroso quando, depois do esforço para a compreensão, finalmente conseguimos entender um texto.

No capítulo III da primeira parte somos levados a raciocinar acerca das afecções dos entes, ou seja, aquilo que nos afeta e faz com que percebamos a existência das coisas, de modo a esclarecer quais das afecções consideradas pelos pensadores metafísicos eram realmente afecções do ente ou não. E aqui vemos a concepção de que Deus é um ente que tem a afecção da necessidade, visto que sua existência é causada pela força de sua própria essência, e, além disso, é causa de tudo o mais. Pois as coisas criadas não existem por elas mesmas ou pela força de sua essência e precisam de uma causa que, em última análise, é Deus ou a natureza, ademais até a essência do que existe é proveniente de Deus, portanto, em um primeiro momento poderíamos dizer que as coisas têm uma existência possível, mas que uma quimera, ou seja, aquilo que tem uma natureza contraditória em si mesmo como, por exemplo, um círculo-quadrado, não poderia nem mesmo ser concebido em nossas mentes, de modo que não poderia estar entre as afecções do ente a impossibilidade.

Entretanto, mesmo a afecção da possibilidade, considerando que todas as coisas foram decretadas por Deus desde a eternidade, não deve ser tomada por uma afecção, mas como um defeito do nosso raciocínio, pois se as coisas foram determinadas pelas leis eternas de Deus, necessariamente têm de existir, ou seja, têm a afecção da necessidade, porque Deus é imutável e não altera seu decreto, cuja força inicial se estende por toda a eternidade com o mesmo poder inicial, visto que a força necessária para manter algo é a mesma utilizada em sua criação. De modo que se considero que o ente tem a afecção do possível é porque não conheço a causa das coisas, ou seja, as leis eternas da natureza ou Deus. Deste ponto podemos vislumbrar o conceito de criação na obra de Spinoza que diz que Deus não é transcendente, mas que é imanente à natureza e que na criação Deus e natureza são uma e a mesma coisa. Essas concepções de Spinoza o levaram a excomunhão da sinagoga, pois era da religião Judaica.
Porém se Deus determinou todas as coisas, onde estaria a liberdade do homem? Spinoza responde que nossas ações e vontades são todas determinadas por Deus, mas contraditoriamente afirma que de algum modo a nossa liberdade está resguardada, pois afirma que todos nós vemos clara e distintamente que muitas vezes fazemos escolhas segundo as nossas vontades, mas também que se atentarmos para a natureza divina, vemos, também clara e distintamente, que as coisas são regidas pelas leis eternas de Deus, pois Ele é soberano. É, portanto, incompreensível, diz ele neste texto a compatibilidade da liberdade com a determinação divina dos fatos.

Além desses pontos, Spinoza trabalha a questão dos modos de pensar que, por vezes, são tomados como afecções dos entes como, por exemplo, a unidade que não é uma afecção, mas um Ente de Razão, ou seja, um modo de pensar que serve para distinguir algo da pluralidade de seres; ou a questão do tempo que também não passa de um ente de razão pelo qual medimos a duração de algo por comparação a uma duração constante.

A questão da verdade também salta aos nossos olhos pela maneira como é pensada na filosofia spinoziana, pois pensa que a verdade ou a falsidade é extrínseca a determinação da linguagem, porque a linguagem é convencional, a verdade não está nas palavras, como também não está nas coisas, mas nas idéias, por exemplo, se digo que a minha caneta é de prata sendo, na verdade, de plástico, poderia não estar dizendo algo falso se estivesse em uma comunidade que denominasse o plástico de prata, portanto o que vale é a idéia verdadeira que temos de plástico e de prata, não importando os termos pelos quais os designamos. A verdade ou a falsidade não faz parte da essência das coisas, mas da essência das idéias. Também faz uma crítica às noções antropomórficas que temos da realidade, o que a religião fez com Deus é um exemplo, outro é o que consideramos bom ou mal tendo em vista apenas o homem, esse é um ponto importante da filosofia de Spinoza, e por fim é notória a ausência de uma teleologia em sua filosofia ou de um bem metafísico que ele prontamente refuta, falando em vez disso, de apenas uma tendência que os seres têm de permanecer em seu ser.

Enfim, como disse é uma obra difícil, mas que se estudarmos pacientemente descobriremos riquezas enormes nessa filosofia que veio a inspirar filósofos como Schopenhauer, Nietzsche e Hegel.

sábado, 18 de julho de 2009

O ARGUMENTO DO TERCEIRO HOMEM



O argumento do terceiro homem aparece no livro Α da Metafísica de Aristóteles. Esse argumento é uma das críticas do estagirita ao seu mestre Platão, porém Aristóteles não tem o mérito de ter formulado essa crítica, pois esta já tivera sido feita por um sofista contemporâneo de Platão chamado Polixemo e o próprio Platão faz um tipo de autocrítica no seu diálogo Parmênides acerca desse mesmo problema de sua teoria.
Esse argumento é uma crítica a teoria das idéias, pois afirma que se tomar-mos como verdadeira a existência das Formas eternas, estas se multiplicariam infinitamente em suas relações com as coisas sensíveis. Antes de esclarecer esse ponto relembraremos um pouco da teoria platônica.
A teoria das Idéias supostamente resolveria o problema da unidade e multiplicidade de uma mesma coisa, tendo em vista que, embora as coisas sensíveis fossem, ora grandes, ora pequenas, e, portanto múltiplas, as idéias eternas e unas preservariam a unidade do ser. Entretanto, pelo fato de só conhecermos algo em sua unidade ideal, por exemplo: só conhecemos os vários livros existentes devido à idéia eterna e una de livro (lembrando que Heráclito que influenciou profundamente a filosofia de Platão, afirmara que a natureza está num eterno fluir, de modo que seria impossível apreender algo corruptível com o pensamento), o que justifica para Platão a necessidade da teoria das Idéias, a qual afirma que os vários livros existentes são cópias semelhantes às idéias paradigmáticas e perfeitas.
Por conseguinte a presente crítica discutida se baseia no fato de que essa semelhança (ομοιον) que fundamenta a teoria das idéias a torna absurda, pois um livro é semelhante ao outro devido à Participação (μετεξις), que se dá através da idéia de semelhança que os tornam semelhantes, e se olharmos com a alma essa relação: livros→ LIVRO[1] é necessário que aja outra Idéia que torne semelhante a presente forma com os livros sensíveis, e essas relações se estenderiam ao infinito, o que torna a teoria das Idéias uma complexidade desnecessária para explicar a realidade.Essa explicação do argumento do terceiro homem se baseia predominantemente no diálogo Parmênides e não na Metafísica de Aristóteles, onde a crítica é nomeada como argumento do terceiro homem.
[1] Onde os livros múltiplos e sensíveis participam da idéia una e eterna de LIVRO.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Canônica epicúrea


Epicuro, segundo Diógenes Laércio, dividiu a filosofia em três segmentos (X, 29): a ética, a física e a canônica. De toda a vasta obra de Epicuro, apenas três cartas chegaram até os dias atuais, a saber: a carta a Menoiceus, a carta a Herôdotos e a carta a Pitoclés, tendo respectivamente como conteúdos predominantes a ética, a física e a astronomia/meteorologia. Mas a obra de Epicuro que trata especificamente da canônica, a qual tinha por título Cânon (κανων) não foi preservada para a posteridade e o que sabemos da canônica epicúrea se deve principalmente a transcrição feita por Diógenes Laércio (na sua obra intitulada Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres) da carta a Herôdotos em que Epicuro fundamenta o conhecimento da natureza (φυσις) através de poucas referências a canônica. Mas o que é canônica? Pretendo esclarecer essa questão simples, mas que não pode ser desmerecida, neste texto em que volto, depois de alguns meses estudando a obra de Epicuro, a comentar a filosofia do jardim.


O termo "Canônica" deriva da palavra grega Cânon (κανων), que pode significar, entre outros significados (segundo o Dicionário Grego-Português e Português-Grego de Isidro Pereira): "molde, princípio", portanto o termo canônica deve ser entendido como o princípio da filosofia, uma introdução à qual todo o desenvolvimento da investigação deve ser moldado, assim como o canôn das escrituras bíblicas deveria se submeter a moldes e regras estabelecidas pelos anciãos, o cânon filosófico de Epicuro deve se submeter às regras e moldes do conhecimento.


A canônica, pois, explicita de que modo obtemos o conhecimento e, claro, o fato de que podemos conhecer. Na carta a Herôdotos Epicuro nos fala que aquilo que conhecemos da natureza deriva do movimento dos átomos que se desprendem dos corpos sólidos e atingem nossos sentidos. As vibrações dos átomos nos corpos fazem com que eles se desprendam, produzindo imagens (ειδωλου) (50) que são capazes de atingir os nossos orgãos sensoriais (αι'σθητηριον), que por sua vez, formam representações (φαντασιαν) em nossa mente, as quais permitem o conhecimento da natureza. Por conseguinte, é necessário outorgar aos sentidos total credibilidade em relação ao conhecimento e admitir que quando erramos não se trata de um falha dos sentidos, mas de uma opinião ou julgamento precipitado.


Observamos que há uma inter-relação entre os segmentos da filosofia de Epicuro, pois a canônica estabelece a possibilidade de conhecer a natureza, mas a própria canônica depende dos conhecimentos físicos para se fundamentar, e o mesmo é visível na ética que depende tanto da física quanto da canônica. Portanto, se há uma divisão na filosofia de Epicuro ela é um expediente utilizado pelos historiadores da filosofia para esclarecer e ordenar melhor o seu objeto de estudo e não uma divisão real no pensamento do filósofo. Espero que este texto tenha sido profícuo no intento de esclarecer um pouco da filosofia epicúrea.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Os filósofos empiristas

O empirismo é uma corrente filosófica que afirma que todo conhecimento humano é proveniente dos sentidos, ou seja, as idéias que temos em nossa mente são advindas das impressões sensíveis. De modo que, nenhuma idéia há na mente humana, por mais complexa que essa idéia seja, que não tenha sido antes uma simples sensação dos objetos externos ou um sentimento interno como raiva, paixão, amor, etc.
HUME
Hume afirma que as impressões são mais vívidas e fortes do que as idéias, pois, quando tento lembrar do gosto de uma maçã que comi ontem, a idéia do sabor da maçã é fraca e embaçada se comparada com a sensação que tive no dia anterior, que era vívida e forte. O mesmo ocorrendo com as impressões internas como medo e raiva, pois um homem que sinta o descontrole da raiva num momento e depois relembre a sensação passada, não perceberá aquele sentimento de raiva com a mesma força. Portanto, as impressões são percepções vívidas e fortes e as idéias percepções fracas e embaçadas.
LOCKE
Ao criticar a teoria das idéias inatas, Locke sustenta que o que nos é inato é a capacidade de conhecer e não as idéias. Sendo assim, surge a necessidade de explicar como se dá o conhecimento. Locke afirma que o conhecimento é formado por idéias derivadas da experiência sensível e da reflexão, pois há idéias oriundas das sensações de objetos externos, como o computador que está na minha frente agora e idéias derivadas da reflexão sobre as operações de nossas próprias mentes, como o pensamento, o duvidar, o crer etc.
BERKELEY
Para Berkeley as idéias são os objetos do conhecimento humano, pois se imprimem na mente através dos sentidos, são percebidas nas operações da mente e são delas que lançamos mão quando nos lembramos de eventos passados, quando imaginamos eventos futuros ou quando criamos seres fantásticos em nossa mente. As idéias vêm à nossa mente através dos sentidos, cada sentido recebe idéias específicas, as quais, quando agem sobre os sentidos simultaneamente, configuram algo como uma fruta, um carro ou uma mesa, pois ser é ser percebido, e por isso, algo só existe quando há quem o perceba através dos sentidos. Portanto, no processo do conhecimento se faz necessário a existência de um agente perceptivo, a saber: a mente ou o eu, pois, as idéias ou sensações não são independentes e não podem existir sem uma mente que os perceba.
BACON
Bacon pretende reformular o saber, demolir a noções falsas que levam o homem ao erro (ídolos) e erigir um saber verdadeiro advindo da experiência, comprometido com a sociedade na medida em que busca torna-la melhor, pois o saber não se resume apenas ao saber, mas saber é poder.

quinta-feira, 18 de junho de 2009


A natureza e o mundo arendtianos

O mundo é produto da fabricação do homem, pois através de seus artifícios o homem cria uma barreira que se interpõe entre ele e a natureza. O homem fabrica seu próprio mundo para burlar o movimento circular e homogêneo da natureza em que os representantes das espécies surgem e desaparecem, pois os homens, diferente dos outros animais, não se resumem apenas ao seu funcionamento biológico animal, pois são animais políticos, que falam e que necessitam, portanto, instaurar um mundo que sirva de assunto entre eles, e, além disso, necessitam dar um caráter imortal ao mundo comum e humano que sirva de abrigo para receber os novos indivíduos mortais que nascem e que seja permanente ao contrário daqueles habitantes que seguiram em linha reta até a morte. Porém a natureza, ao contrário do mundo comum e humano, é inteiramente dada, é o pano de fundo em que os representantes das espécies animais surgem e desaparecem, desempenhando sempre aquilo que estavam programados bioquímicamente pela espécie num processo cíclico e homogêneo.


A fragilidade do mundo comum e humano

A fragilidade do mundo comum e humano não reside na espécie humana, nem no mundo enquanto abrigo dos homens, o qual é produzido pela fabricação, mas no mundo enquanto assunto dos homens ou no lado público do mundo. Pois ao contrário das obras humanas que tomam emprestado da natureza a sua matéria, a ação e a fala não têm um caráter estável. Pois a ação e a fala só permanecem durante o tempo em que são efetivadas, não são duráveis, de modo que, o lado público do mundo só existe na pluralidade humana, pois, quando os homens se dispersam, se isolam ou quando interrompem o agir e o falar, não há mais lado público do mundo. O agir e o falar necessitam de serem tornados reais e tangíveis, de serem reificados, para poderem ser lembrados pelas gerações futuras e o processo gerado por aqueles não seja perdido. Mas quando a ação e a fala são feitos produtos da fabricação, tal fabricação não tem o mesmo efeito sobre aqueles que o sentem depois do processo de reificação, do que sobre aqueles que estavam presentes no frágil momento em que homens plurais agiram e falaram. Além disso, a ação e a fala são imprevisíveis, pois resultam da liberdade humana, são irreversíveis, pois ocorrem linearmente no tempo, e seus autores são anônimos.

A solução grega para a fragilidade do "lado público do mundo"


A solução grega para a fragilidade do lado público do mundo foi instaurar um meio de “preservar a teia das relações humanas”, de modo que o agir e o falar não fossem interrompidos pelo isolamento ou dispersão humanos, ou seja, a pólis. Os gregos instituíram a ação e a fala como a mais importante atividade humana no momento em que distinguiram o lado privado do lado público do mundo, pois o lado privado, ou o lar, é o campo da necessidade, em que os homens agem meramente para satisfazer suas necessidades, impulsionados por suas animalidades, enquanto que no lado público os homens agem com liberdade e são vistos como detentores da virtude da coragem, sentem-se mais humanos e menos animais. Assim, desejosos de fama e glória, os gregos se lançam no lado público do mundo e o fortalecem.

Poder, força e autoridade

O poder tem sido confundido com a mera força violenta e coativa, pois é entendido na relação domínio-submissão, mas a força é exercida por um homem isolado, enquanto que o poder só é exercido entre homens em sua pluralidade e em condições de igualdade entre si, não compreendendo uma relação de mando e obediência, mas uma relação de consentimento às leis estabelecidas por eles mesmos, tal qual na tradição greco-romana. E é aqui que o conceito de autoridade se insere, uma vez que autoridade não é uma manifestação da força coativa para com os subordinados, mas é a capacidade de obter obediência sem o uso da violência ou persuasão, a autoridade é consentida por quem obedece, pois foram os homens plurais e em igualdade que estabeleceram, através do acordo entre os homens que se encontra na potencialidade do agir e falar, quem e o que deveria exercer autoridade. De modo que aquele que renuncia o lado público do mundo, renuncia ao poder, pois o poder funda a convivência entre os homens e a preserva.

A solução platônica para as calamidades da ação

As calamidades da ação são: a imprevisibilidade dos resultados, a irreversibilidade do processo e o anonimato dos autores. E a solução platônica para esses problemas começa a se configurar quando da morte de Sócrates, a qual patenteou o declínio gritante que a polis vinha sofrendo desde a guerra do peloponeso, e que definitivamente desiludiu o filósofo em relação à política. Num momento em que a ação e a fala visavam somente interesses próprios, e só interessava a conveniência do mais forte, uma vez que se poderia dizer tudo sobre qualquer coisa e defender pontos de vista opostos com a mesma persuasão, aparece com Platão a primeira perspectiva filosófica com relação à política: não há necessidade da pluralidade humana, pois nossas ações devem ser guiadas pela razão, basta nos concentrarmos na contemplação para conhecermos o ser e agir segundo esse conhecimento dado pela razão, pois não há necessidade de se arriscar se lançando no lado público do mundo em ações temerárias, imprevisíveis e irreversíveis.